Estamos morando juntos agora. Eu, Caim e Bruxus. Caim não abriu mão do seu apartamento luxuoso, veio morar comigo mas achou que era por bem manter um outro refúgio. Desde a inesquecível noite de St. Patrick no apartamento dele até hoje, estamos construindo um bom relacionamento. Embora seja visível que ele me esconde ainda muita coisa, isso não me incomoda. Confio nele da mesma forma. Não me causa angústia, desconfiança e nem raiva que ele me esconda coisas importantes - ele vai me contar só que ainda não é a hora. Ele mudou muito, eu mudei muito. Ele está mais sociável, minha mãe o adora, meus amigos o adoram, meus colegas de trabalho... o adoram. Eu estou mais corajosa, mais confiante, mais envolvida... parece que tenho me conhecido melhor.
Caim precisou viajar. Partiu há dois dias para o Marrocos. Ele percorrerá Marrocos, Egito e Sudão. Alguns amigos dele, arqueólogos, encontraram alguns objetos estranhos em escavações nesses países, e embora o Caim não seja exatamente um arqueólogo, é a única pessoa em quem podem confiar essas descobertas. Seja como for, estou aguardando o email dele pra me contar do que se trata! Sei que ele já chegou ao Marrocos, mais ia se encontrar com os amigos apenas amanhã.
É apenas eu e o Bruxus. O lindo, enorme e carinhoso Husky monstruoso de olhos azuis.
Antes de o Caim ir viajar, perguntei se o Bruxus tinha algum detalhe especial para o qual eu precisava me atentar. "Não se preocupe", disse ele, "tudo o que ele precisar, quando ele precisar, ele vai te dizer. Pode ficar sossegada!". Tudo bem então. Quando quer comida, ele pede - e pelos Deuses, esse cachorro come como um tigre! - e hoje ele me pediu para levá-lo para passear. E lá fomos nós.
Saímos de casa por volta das 20:00. Sempre observei o Caim passear com ele sem coleira, então fiz o mesmo (afinal, que coleira ia se fechar em volta de um pescoço tão enorme?). Bruxus pareceia muito confortável, andando ao meu lado, despreocupado com o mundo. Foi ai que ouvimos. Ouvimos um uivo longo, agudo, e próximo. Bruxus saltou na minha frente, me impedindo de continuar o caminho.
"Tudo bem, garotão. Vamos voltar pra casa. É óbvio que há um cachorro tão grande como você por aqui e eu não quero que você se meta em alguma briga e se machuque. Seu pai me mataria, eu me mataria se te acontecesse algo! Venha, Bruxus!"
"Não vamos. Não vai dar".
Pois é. Ele me respondeu. Com uma voz rouca, e grossa, que parecia um trovão. O curioso é que eu não me assustei. Não me surpreendi, não fiquei chocada, não fiquei com medo. Ouvir a voz do Bruxus me deu coragem, e então eu comecei a entender algumas coisas.
"Como assim não podemos voltar? Vamos voltar sim ...... -"
"Não vamos voltar, Alex. Já sabem que estamos aqui. Seremos obrigados a lutar com eles para afugentá-los."
Antes que eu pudesse usar a clássica "pergunta-clichê" "Eles quem, Bruxus?", um lobo gigantesco (GIGANTESCO!) saltou sobre meu cachorro agarrando-o pelo pescoço. Eles rolaram pelo asfalto em meio a rosnados, latidos e uivos. Eu não percebi que mais desses lobos gigantescos estavam se aproximando - até que ficamos cercados por 5 dessas coisas. A coragem que o Bruxus tinha me passado deu espaço ao medo; um medo tão grande, tão assustador, que eu comecei a me sentir mal. Me senti mal pelo Caim, pela minha mãe, pelos meus amigos que eu deixaria. Quero dizer, eu ia morrer atacada por lobos monstruosos, e não tinha nada que eu poderia fazer. Desmaiei.
Acordei com o Bruxus lambendo meu rosto. Mas não era mais o Bruxus. Procurei em todo o lugar pelo Husky, mas no lugar dele uma pantera negra enorme. Ele falava comigo e tentava me acordar. Estava machucado. Levantei-me e olhei ao redor: os lobos ainda estavam lá, alguns mancando, outros sorrindo com uma malicia assustadora, e alguns outros estavam se transformando em homens. Eram lobisomens.
Me levantei do chão com uma coragem que não sei de onde tirei. Eu tinha força, coragem, vida e... magia. Eu podia sentir alguma magia poderosa dentro de mim. "Chame pelo fogo", Bruxus me disse. Eu não sabia o que queria dizer, mas uma voz dentro de mim começou a me dar a mesma ordem. E ai eu chamei. Chamei em palavras estranhas, em um idioma que eu não vou saber reproduzir aqui. Mas devia ser algo entre árabe, hebraico, aramaico. Enfim. Eu chamei.
Minhas mãos começaram a pegar fogo, e na mesma hora Bruxus foi atacado por um lobo. Eu não sabia o que fazer, até que a voz dentro de mim me orientou: "Vê o fogo nas suas mãos? Ele não te queima. Não vai queimar a pantera, basta que você se concentre no lobo que quer acertar". Me concentrei e busquei atingir o lobo. Labaredas poderosas sairam da minha mão, queimaram o tal lobo, e a pantera, ilesa veio para o meu lado. Até aquele momento os lobisomens não tinham me notado completamente. Tudo aconteceu tão rápido que a partir do momento em que desmaiei, pensaram que a 'humana" tinha sido fácil demais de lidar. Não contavam com o fato de que eu tinha magia. Eu também não contava com isso. Assim que eu encinerei um deles, ficaram em alerta. Os 4 restantes perceberam que a situação não estava mais a favor deles porque a humana era mais perigosa do que eles imaginaram. Lançaram um último olhar ameaçador para mim e para o Bruxus e fugiram. E eu... Bem, desmaiei de novo.
Acordei em casa, com Bruxus já em forma de Husky de novo. Eu não tinha dor de cabeça, tontura, nada. Era como se um outro eu dentro de mim tivesse despertado. Eu queria sentir a sensação de controlar o fogo outra vez. Mas antes, eu tinha algumas perguntas a fazer para um certo alguém. Eu queria saber porque o Bruxus fala e se transforma em pantera, eu queria saber de onde veio aquele fogo e aquela magia, e eu queria saber se os lobisomens foram uma ilusão ou não. Para tudo isso, Bruxus me deu apenas uma resposta. Mandei um email para o Caim e peguei o telefone.
Só tinha uma pessoa que poderia me ajudar a pensar.
"Alô? Mãe? Em que parte da minha vida você me contaria que eu sou uma bruxa?"
Blog inspirado em contos de Vampiros de F.M. Crawford, Lord Byron, Bram Stoker, M.R. James...!
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domingo, 7 de agosto de 2011
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Domingo, 2 de Janeiro de 2011 - Caim, Husky e o Desconhecido.
Fui convidada pela Lorena para passar o fim de ano no sítio da família dela. A maior parte dos nossos amigos está aqui. No dia que ela me convidou, logo após o Natal, tive outra surpresa - e teria sido mais chocante se eu já não suspeitasse.
Bem, eu estava cuidando de um Husky. Lindo, grande, forte, de pelagem preta e branca e incriveis olhos azuis. E foi por causa dos olhos que dei a ele o nome de Caim. Já fazia um tempo que eu não via o Caim, mas em compensação, tinha aparecido o Husky. Eu tinha o hábito de levar o cão para passear a noite; por causa do tamanho dele e para não ser tão incomodada pelos demais transeuntes, o cair da noite era a melhor hora para passearmos. E em um dos nossos passeios, notei estar sendo seguida. Mas não dei tanta importância, até que por mais três noites a perseguição continuou. Na quarta noite, houve o contato.
Lembro que, conforme o cidadão se aproximava, menor ele parecia. E quanto mais ele se aproximava, mais o Caim - o Husky, claro - criava raizes no chão e rosnava para o sujeito. Estava muito dificil conseguir arrastar um Husky do tamanho dele para dentro do prédio. Tanto é que o sujeito nos alcançou.
Lembro até o momento em que o homem tentou investir contra mim tentando escapar dos dentes e das garras do meu cachorro. Era um homem alto, muito magro e de cabelos castanhos, curtos e penteados para cima. Ele usava uma calça jeans, coturnos e um casaco por cima. Não usava camisa, de modo que tinha o torso nu, coberto apenas pelo casaco aberto. Apesar da magreza cadavérica do homem, fiquei empressionada com a força dele. Ele conseguiu jogar meu cão pro lado e veio na minha direção, pronto pra me atacar também. Centímetros antes dele me tocar, eu pude ouvir as sirenes dos carros de policia se aproximando - Geoff, sindico do prédio, tinha acompanhado tudo de sua sacada e chamou a policia. Só os Deuses sabem o que ele fazia na sacada, acordado a essa hora!
Quando os carros da policia já estavam estacionando e os primeiros policiais desceram, o sujeito esquisito saiu correndo. E pro meu azar, meu lindo Husky correu atrás dele, em uma fúria que eu nunca tinha visto em nenhum cachorro. Os policiais passaram a noite comigo aguardando noticias do meu cachorro, e nada. Eu o tinha perdido.
O bizarro é que... Mesmo tendo perdido um cachorro, eu sabia que ele ia voltar. E dito e feito, faltando uns 2 dias antes de eu ir viajar para o sítio da Lorena enquanto arrumava as malas, meu telefone tocou. Era o Caim. Caim humano, quero dizer. Ao telefone, ele tinha a voz cansada, e um tom meio desesperado por companhia. Quando ele chegou ao meu apartamento e abri a porta, fiquei chocada com o estado dele! Suas roupas estavam rasgadas, ele estava todo machucado e arranhando, tinha fome, frio e cansaço.
Liguei no dia seguinte perguntando a Lorena se poderia levá-lo ao sitio comigo. Ele queria muito ir. Na verdade, depois do episódio do Husky, tenho certeza de que o Caim não vai mais me deixar sozinha por nenhum segundo!
Ele prometeu que vai me contar o que aconteceu, e porque ele chegou na minha casa em estado lastimável. A caminho do sítio, notei que todos os machucados que ele tinha pelo corpo não passam, agora, de cicatrizes que vão sumindo com os dias. Sério, ainda não entendo o Caim. Que ele não é um simples taxista, ok, já deu pra notar. O que ele é?
A propósito, ele disse que sabe do cara que me atacou e vai me contar. Diz também que sabe do meu Husky e que eu não preciso me preocupar pois ele está seguro.
Eu mencionei que quando o Caim chegou em casa semi-morto ele tinha a coleira do meu cão nas mãos?
Bem, eu estava cuidando de um Husky. Lindo, grande, forte, de pelagem preta e branca e incriveis olhos azuis. E foi por causa dos olhos que dei a ele o nome de Caim. Já fazia um tempo que eu não via o Caim, mas em compensação, tinha aparecido o Husky. Eu tinha o hábito de levar o cão para passear a noite; por causa do tamanho dele e para não ser tão incomodada pelos demais transeuntes, o cair da noite era a melhor hora para passearmos. E em um dos nossos passeios, notei estar sendo seguida. Mas não dei tanta importância, até que por mais três noites a perseguição continuou. Na quarta noite, houve o contato.
Lembro que, conforme o cidadão se aproximava, menor ele parecia. E quanto mais ele se aproximava, mais o Caim - o Husky, claro - criava raizes no chão e rosnava para o sujeito. Estava muito dificil conseguir arrastar um Husky do tamanho dele para dentro do prédio. Tanto é que o sujeito nos alcançou.
Lembro até o momento em que o homem tentou investir contra mim tentando escapar dos dentes e das garras do meu cachorro. Era um homem alto, muito magro e de cabelos castanhos, curtos e penteados para cima. Ele usava uma calça jeans, coturnos e um casaco por cima. Não usava camisa, de modo que tinha o torso nu, coberto apenas pelo casaco aberto. Apesar da magreza cadavérica do homem, fiquei empressionada com a força dele. Ele conseguiu jogar meu cão pro lado e veio na minha direção, pronto pra me atacar também. Centímetros antes dele me tocar, eu pude ouvir as sirenes dos carros de policia se aproximando - Geoff, sindico do prédio, tinha acompanhado tudo de sua sacada e chamou a policia. Só os Deuses sabem o que ele fazia na sacada, acordado a essa hora!
Quando os carros da policia já estavam estacionando e os primeiros policiais desceram, o sujeito esquisito saiu correndo. E pro meu azar, meu lindo Husky correu atrás dele, em uma fúria que eu nunca tinha visto em nenhum cachorro. Os policiais passaram a noite comigo aguardando noticias do meu cachorro, e nada. Eu o tinha perdido.
O bizarro é que... Mesmo tendo perdido um cachorro, eu sabia que ele ia voltar. E dito e feito, faltando uns 2 dias antes de eu ir viajar para o sítio da Lorena enquanto arrumava as malas, meu telefone tocou. Era o Caim. Caim humano, quero dizer. Ao telefone, ele tinha a voz cansada, e um tom meio desesperado por companhia. Quando ele chegou ao meu apartamento e abri a porta, fiquei chocada com o estado dele! Suas roupas estavam rasgadas, ele estava todo machucado e arranhando, tinha fome, frio e cansaço.
Liguei no dia seguinte perguntando a Lorena se poderia levá-lo ao sitio comigo. Ele queria muito ir. Na verdade, depois do episódio do Husky, tenho certeza de que o Caim não vai mais me deixar sozinha por nenhum segundo!
Ele prometeu que vai me contar o que aconteceu, e porque ele chegou na minha casa em estado lastimável. A caminho do sítio, notei que todos os machucados que ele tinha pelo corpo não passam, agora, de cicatrizes que vão sumindo com os dias. Sério, ainda não entendo o Caim. Que ele não é um simples taxista, ok, já deu pra notar. O que ele é?
A propósito, ele disse que sabe do cara que me atacou e vai me contar. Diz também que sabe do meu Husky e que eu não preciso me preocupar pois ele está seguro.
Eu mencionei que quando o Caim chegou em casa semi-morto ele tinha a coleira do meu cão nas mãos?
domingo, 7 de novembro de 2010
Domingo, 3 de outubro de 2010 - A Árvore
Meu dia foi normal. Sem nenhum acontecimento marcante ou bizarro. E a chuva que começou a cair durante a manhã foi a única parte incômoda do dia, pois ela perdurou até o meio da tarde.
Voltando para casa, hoje no fim da tarde por volta das 19:30, deparei-me com uma cena fora de rotina: uma árvore caiu e destruiu parte de duas casas. Eu nunca tinha visto isso, e não me lembro de a chuva ter se transformado em tempestade em qualquer região da cidade; e nem mesmo ventos fortes foram detectados para que as pessoas entrassem em alerta. O que a derrubou então?
Conforme fui me aproximando dos destroços, foi sendo possivel distinguir onde exatamente a árvore tinha cedido, mas era dificil definir se foi coisa da natureza ou do homem. A árvore estava cheia de buracos mas eu não sabia dizer se ela estava podre.
Eu sou muito curiosa. E o fato de uma árvore estar caida sem aparentar podridão é o suficiente para despertar em mim uma curiosidade de dar orgulho à Sherlock Holmes. Eu precisava saber o que tinha acontecido. Eu estava tão curiosa que não notei a noite chegar, não notei a garoa recomeçar, e não notei o bêbado que me observava do outro lado da rua.... até ele gritar para mim.
- Moça! Ei moça! Você não deveria se aproximar dessa árvore! Ela caiu porque é maldita! Você deveria passar por aqui onde estou, é mais seguro!
Olhei para o bêbado, e olhei para a árvore. Olhei para o bêbado novamente e percebi que ele estava sem calça; olhei para a árvore novamente e percebi que haviam morcegos dentro dela. Antes que o bêbado pudesse gritar outra vez, eu já estava caminhando na direção dos morcegos. Cismei que o bêbado ia me seguir. E ele realmente o fez. Tive que parar minha análise sobre a árvore antes do que eu queria para me preocupar em despistá-lo. Para mim, foi tarde demais.
No mesmo instante em que percebi o bêbado me alcançando, um homem pulou na minha frente, me abraçou, me deu um beijo e disse todo feliz:
- Querida! Já estava ficando preocupado! - e olhando para o bêbado, completou: - Quem é você, seguindo minha esposa?
Só não entrei em desespero pois eu só conhecia um homem com uma voz tão aveludada, não muito grave, e muito sedutora. E o toque daquelas mãos frias ao redor da minha cintura me acalmaram. Mais uma vez, e inesperadamente, o Caim aparecia na minha vida.
O bêbado se assustou com o tamanho do Caim, deixou cair sua garrafa de cerveja, fechou a jaqueta, pediu desculpa e saiu correndo - correndo e tropeçando, devo dizer. Caim olhou para mim perguntando se eu estava bem e logo voltou sua atenção para a árvore. Eu entendi que ele já estava por lá antes de eu aparecer.
- Caim, você viu o que derrubou essa árvore? Deve ter sido um vento e tanto!
- Não foi o vento.
- Não? Será então o pessoal da companhia de eletricidade para evitar que os galhos alcancem os fios de energia?
- Não.
- Algum trator desgovernado?
- Não.
- Ah, sei, um dinossauro?! Godzilla?! Frankenstein???
- Não!
Ele não ia me dizer. E pela primeira vez, o vi sério, pensativo. Pela primeira vez ele estava me assustando.
- Caim? Você está me assustando. O que fez isso? Quem fez isso? E esses morcegos?
- Os morcegos moram ai e não pretendem sair... Faremos o seguinte, vou te levar até sua casa, e ficarei por lá pelo menos pelos próximos dias.
- Você vai ficar na minha casa?! A troco de quê?
- Segurança.
- Segurança contra o quê? Contra quem?!
Ele ficou em silêncio, me puxou pela mão e viemos andando até minha casa.
São 01:32 da madrugada do dia 4.
Caim está dormindo no meu quarto de hóspedes, mas eu sei que o sono dele é um sono alerta.
E ele ainda não me diz o que está acontecendo.
Só sei que enquanto ele está por perto, eu me sinto protegida e bem.
Voltando para casa, hoje no fim da tarde por volta das 19:30, deparei-me com uma cena fora de rotina: uma árvore caiu e destruiu parte de duas casas. Eu nunca tinha visto isso, e não me lembro de a chuva ter se transformado em tempestade em qualquer região da cidade; e nem mesmo ventos fortes foram detectados para que as pessoas entrassem em alerta. O que a derrubou então?
Conforme fui me aproximando dos destroços, foi sendo possivel distinguir onde exatamente a árvore tinha cedido, mas era dificil definir se foi coisa da natureza ou do homem. A árvore estava cheia de buracos mas eu não sabia dizer se ela estava podre.
Eu sou muito curiosa. E o fato de uma árvore estar caida sem aparentar podridão é o suficiente para despertar em mim uma curiosidade de dar orgulho à Sherlock Holmes. Eu precisava saber o que tinha acontecido. Eu estava tão curiosa que não notei a noite chegar, não notei a garoa recomeçar, e não notei o bêbado que me observava do outro lado da rua.... até ele gritar para mim.
- Moça! Ei moça! Você não deveria se aproximar dessa árvore! Ela caiu porque é maldita! Você deveria passar por aqui onde estou, é mais seguro!
Olhei para o bêbado, e olhei para a árvore. Olhei para o bêbado novamente e percebi que ele estava sem calça; olhei para a árvore novamente e percebi que haviam morcegos dentro dela. Antes que o bêbado pudesse gritar outra vez, eu já estava caminhando na direção dos morcegos. Cismei que o bêbado ia me seguir. E ele realmente o fez. Tive que parar minha análise sobre a árvore antes do que eu queria para me preocupar em despistá-lo. Para mim, foi tarde demais.
No mesmo instante em que percebi o bêbado me alcançando, um homem pulou na minha frente, me abraçou, me deu um beijo e disse todo feliz:
- Querida! Já estava ficando preocupado! - e olhando para o bêbado, completou: - Quem é você, seguindo minha esposa?
Só não entrei em desespero pois eu só conhecia um homem com uma voz tão aveludada, não muito grave, e muito sedutora. E o toque daquelas mãos frias ao redor da minha cintura me acalmaram. Mais uma vez, e inesperadamente, o Caim aparecia na minha vida.
O bêbado se assustou com o tamanho do Caim, deixou cair sua garrafa de cerveja, fechou a jaqueta, pediu desculpa e saiu correndo - correndo e tropeçando, devo dizer. Caim olhou para mim perguntando se eu estava bem e logo voltou sua atenção para a árvore. Eu entendi que ele já estava por lá antes de eu aparecer.
- Caim, você viu o que derrubou essa árvore? Deve ter sido um vento e tanto!
- Não foi o vento.
- Não? Será então o pessoal da companhia de eletricidade para evitar que os galhos alcancem os fios de energia?
- Não.
- Algum trator desgovernado?
- Não.
- Ah, sei, um dinossauro?! Godzilla?! Frankenstein???
- Não!
Ele não ia me dizer. E pela primeira vez, o vi sério, pensativo. Pela primeira vez ele estava me assustando.
- Caim? Você está me assustando. O que fez isso? Quem fez isso? E esses morcegos?
- Os morcegos moram ai e não pretendem sair... Faremos o seguinte, vou te levar até sua casa, e ficarei por lá pelo menos pelos próximos dias.
- Você vai ficar na minha casa?! A troco de quê?
- Segurança.
- Segurança contra o quê? Contra quem?!
Ele ficou em silêncio, me puxou pela mão e viemos andando até minha casa.
São 01:32 da madrugada do dia 4.
Caim está dormindo no meu quarto de hóspedes, mas eu sei que o sono dele é um sono alerta.
E ele ainda não me diz o que está acontecendo.
Só sei que enquanto ele está por perto, eu me sinto protegida e bem.
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